14/03/13

Radiohead e Paul Thomas Anderson

Ultimamente me aprofundando um pouco mais no trabalho da banda Radiohead, percebi que as semelhanças entre esta e o cineasta Paul Thomas Anderson vão além do guitarrista Johnny Greenwood na trilha sonora dos dois últimos filmes do diretor. Tanto o PTA de 2002 pra cá quanto o grupo liderado por Thom Yorke possuem um ideal artístico de desequilíbrio, de propôr desamparo, de experimentar o exótico cada vez mais, de misturar pura exploração atmosférica com o desconforto do não-pertencimento a uma era tão modernizada. Não é a toa que o cineasta passou a fazer filmes realmente significativos (quer dizer, além de um bom exercício cinéfilo de estilo) e desprendidos de um senso moralista somente a partir de "Embriagado de Amor": Foi quando ele entendeu, provavelmente com ajuda da música do Radiohead,  o que de fato havia de interessante no tipo de personagens que vinha filmando desde "Boogie Nights" e que não deveriam ser julgados por simples questão moral como era feito no filme de 97 e em "Magnólia". Aquele monstro primitivo e por vezes fora de controle, protagonista de "Embriagado de Amor", "Sangue Negro" (a obra-prima do diretor) e "O Mestre", é consequência do sufoco do capitalismo, da vinda da modernidade, da competitividade cega tanto entre indivíduos quanto entre nações - no caso do último longa. E aí não é difícil lembrar daquela similar atmosfera pós-apocalíptica sensacional do álbum "Kid A". Além disso, Paul Thomas Anderson (quer dizer, ao menos o de 2002 pra cá) prefere acompanhar sem muita interferência - o que incomoda muita gente, vale lembrar - as relações dos personagens ao invés de cutucá-las e desenvolvê-las como outro cineasta provavelmente faria, o que também é influência de Radiohead (exemplo disso é a música "Creep").
 
Enfim, Thom Yorke é o mestre e Paul Thomas Anderson é o bom aprendiz - os artistas que não conseguem de modo algum se encaixar neste mundo excessivamente moderno de hoje. Ambos têm seus erros e seus acertos (afinal, não é fácil dominar o desequilíbrio, nem na linguagem musical e nem na linguagem cinematográfica), mas a importância da proposta de seus trabalhos é inegável.

25/02/13

And the Oscar goes to...

A última vez em que Hollywood/Academia acertou qual filme destacar foi em 2010, quando "Guerra ao Terror", que abordou a sombria relação entre o soldado e o campo de batalha de maneira quase tão impressionante quanto em "O Franco Atirador" (só que num contexto modernizado, o que deixa o longa de Kathryn Bigelow ainda mais instigante), recebeu seis Oscars - embora "Bastardos Inglórios", competindo naquele ano, seja ainda melhor. Acontece que depois a Academia foi se rendendo demais à publicidade com os superficiais "O Discurso do Rei" e "O Artista" e esqueceu que o filme premiado deve ter alguma mínima relevância, seja ela cinematográfica, seja ela social, seja ela política. Foi então que Ben Affleck surgiu com seu equilibradamente brincalhão "Argo", filme que usa um monte de arquétipos assumidos para falar sobre a linha que divide a realidade da ficção encenada sem perder o domínio estético-narrativo e o foco na tensão, no clima e nas relações dos personagens. "Argo" é todo carregado por mentiras dramatizadas bem contadas, e isso é de um valor metalinguístico digno de um prêmio como o Oscar sim. Ok, prefiro o outro filme da Bigelow, aquele sobre a caçada ao Bin Laden, ou então o nem indicado "O Mestre". Mas o longa de Affleck tem sua relevância e isso que importa. Enfim, só tô me antecipando pra quando surgir os inevitáveis detratores acusando "Argo" de esquemático, superestimado e blábláblá...
 
Além de premiar um filme muito bom, mesmo com este já tendo levado praticamente todos os prêmios importantes da temporada, o Oscar 2013 foi longe de ser tão previsível quanto os dois anteriores. Na categoria de melhor direção podia dar qualquer um, e o vencedor realmente fez um trabalho estético bem respeitável (Ang Lee, por "As Aventuras de Pi"), embora eu ainda prefira a firmeza da encenação de Steven Spielberg em "Lincoln". Jennifer Lawrence também surpreendeu ao pegar o prêmio da elogiada senhora de "Amor", que fazia aniversário no dia da premiação - muitos se incomodaram, mas eu achei que Lawrence trabalhou muito bem em "O Lado Bom da Vida", então por mim tanto faz. Outra surpresa foi o empate na categoria de Melhor Edição de Som, entre "007 - Operação Skyfall" e "A Hora Mais Escura" (blé, tinha que ter ido só pra esse último), além de Christoph Waltz levando Ator Coadjuvante por um papel tão parecido com o de "Bastardos Inglórios", pelo qual também ganhou o Oscar - além de ser do mesmo diretor de "Django Livre", né. Entre as decepções, "Valente" levando Melhor Animação (se bem que o ano já foi bem fraco pras animações mesmo) e "Os Miseráveis" Mixagem de Som, numa categoria que deveria destacar "007 - Operação Skyfall" - na boa, o som de Les Miserábles quase não tem construção atmosférica; o foco excessivo nas vozes tinha que ter sido melhor equilibrado.
 
No fim, um Oscar respeitável para um ano relativamente fraco para Hollywood.

24/02/13

Oscar 2013

Bom, antes, as primeiras impressões sobre os nove indicados ao Oscar de Melhor Filme:
A Hora Mais Escura (Katheryn Bigelow) - O verdadeiro filme de guerra pós-moderno. Nota 7,5.
Argo (Ben Affleck) - O cinema como um instrumento de liberação. Nota 7,5.
Django Livre (Quentin Tarantino) - Esses espetáculos tarantinescos e suas sacadas irresistíveis... Nota 7,5.
Lincoln (Steven Spielberg) - Spielberg encontrando o tom perfeito para seu classicismo fordiano bem intencionado. Nota 7,5.
As Aventuras de Pi (Ang Lee) - Tudo que se pode pedir de um filme de fantasia, apesar de certas superficialidades. Nota 7,0.
Amor (Michael Haneke) - Como filme sobre a morte, ótimo; como filme de personagens, um artifício. Nota 6,0.
O Lado Bom da Vida  (David O. Russell) - Clichê até a raiz, mas funciona pela dinâmica do elenco. Nota 6,0.
Os Miseráveis (Tom Hooper) - Valeu a ousadia, mas sem equilíbrio ou atmosfera não dá. Nota 5,0.
Indomável Sonhadora (Behn Zeitlin) - Muita banha pra pouco filme de verdade. Nota 5,0.

04/02/13

Lincoln, Os Miseráveis e o segredo da mise-en-scene

"Lincoln" e "Os Miseráveis" estão ambos na corrida pelo Oscar 2013, sendo Spielberg a minha aposta em melhor direção e Daniel Day-Lewis favorito em melhor ator, e o filme de Hooper favorito em atriz coadjuvante (para Anne Hathaway). Provavelmente só as indicações ao Oscar mesmo que esses filmes têm em comum, mas ainda assim resolvi comentá-los juntos aqui rapidamente, começando pelo longa do Spielberg - aliás, nos EUA foi um sucesso de público e crítica, mas no Brasil pelo menos teve uma recepção bastante morna.

28/01/13

Michael Haneke e aquele seu último filme que é sobre tudo, menos sobre "Amor"

Primeira reação ao ver o trailer de "Amor": Estaria Michael Haneke, um dos maiores misantropos da história do cinema, a realmente fazer um filme sobre o afeto?
 
Pra quem já viu, a resposta é bem clara, mas acho essa supervalorização toda do filme do austríaco bem exagerada. Já houveram vezes em que eu realmente comprei a proposta do cinema de Haneke porque seu talento como cineasta provocativo é inegável - ele é um artista moderno que domina sua linguagem como poucos, colocando os mecanismos de mise-en-scene funcionando em prol do incômodo do espectador antes de estourarem no choque da violência e da crueldade humana. Mas essa visão que o diretor tem do ser humano foi demonstrando-se cada vez mais reducionista, até ele perceber que pode usar seu talento para obter algum prestígio maior por aí. Assim, Michael Haneke se tornou um provocador enrustido no meio de insinuações mais profundas e pseudo-artísticas, principalmente quando resolveu fazer em "Amor" um filme que se vende como sobre o afeto, mas que no fundo é tão perverso quanto os outros do cineasta. (E já aviso que há spoilers abaixo.)