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19/12/2017

Os 40 melhores filmes de 2017

Este foi um ano bem de transformações para mim, indo morar sozinho em outra cidade para estudar cinema, e aí nada mais normal que variar um pouco nos critérios pra fazer essa lista. Como consegui assistir bastante coisa interessante no Festival do Rio, então além dos filmes lançados em 2017 pelo circuito comercial, por home video, streaming ou on demand, vale também o que eu tenha visto em festivais este ano - já avisando que na Mostra de São Paulo eu não fui, então coisas que passaram apenas lá com certeza não aparecerão.

Outra mudança é que, como continuo deixando esse blog abandonado mesmo quando tenho tempo para postar algo, resolvi deixá-lo de vez (pelo menos por enquanto, quem sabe), mas estarei postando num projeto coletivo com amigos da faculdade, neste link aqui: http://conversasdebandejao.wordpress.com/. De qualquer forma deve ser a última vez que faço a lista de fim de ano nesse formato mais expandido e pessoal, seguindo os preceitos deste bom e velho texto da Cinética - legal também por ser um recorte que provavelmente eu vou querer "alterar" daqui um, dois anos, porque nossos gostos e visões mudam; mas sempre que eu revisito minhas outras listas de fim de ano nesse formato eu fico surpreso com o quanto minha opinião é diferente hoje, parece realmente outra pessoa escrevendo e organizando. Acho que esse blog todo (que eu tenho desde 2010, quando eu tinha 12 anos) também vai servir pra deixar registrado esses anos de cinéfilo de apartamento descobrindo coisas, e que eu vou acabar também revisitando com curiosidade algum dia, e nada melhor do que encerrar a jornada com mais uma lista dessas.

Sem mais delongas (e, aliás, que ano incrível):

40. Logan (James Mangold)
Eu já gostava levemente do outro filme do Wolverine que James Mangold dirigiu, e ali já dava pra ver uma fantasia auto-consciente e fascinada pelas ações do tempo sobre o corpo de Hugh Jackman. Logan desenvolve melhor tudo isso deixando bem exposta a veia melancólica, e por mais que seja tudo trabalhado sobre artifícios dramáticos previsíveis, o diálogo que se faz com os primeiros X-Men e as consequências da apropriação cinematográfica de um personagem icônico das HQs, transformado num corpo de carne e osso condicionado à realidade e ao tempo, consegue de fato ser bem impactante. Curto como o filme combina várias ideias aparentemente incompatíveis (como a violência, o sci-fi, a figura da filha etc) mesmo que no fim funcione mais pela simplicidade narrativa.


39. Segurança em Risco (Alain Desrochers)
Parece que colocar Antonio Banderas em Os Mercenários 3 deu efeito e o cara conseguiu um espaço significativo no mercado de filmes de ação direto-para-vídeo. Security é um dos bons filmes de gênero desse ano e consegue juntar a imagem meio desgastada do ator com uma premissa baseada num olhar infantil que restaura sua figura heroica, e, talvez até por causa disso, em muitos detalhes e sentimentos é um filme bastante reminiscente dos anos 90 - em especial diretores como John McTiernan e o James Cameron pré-Titanic. Tem várias ideias visuais e de exploração do espaço pela ação bem divertidas e uma concisão de arco dramático envolvente.


38. Logan Lucky - Roubo em Família (Steven Soderbergh)
Soderbergh retorna à premissa de assalto vingativo que o consagrou na trilogia Oceans como um dos melhores artesãos de Hollywood à época, mas algo em Logan Lucky parece perdido no tempo trazendo as mesmas estratégias de iconografia e ilusionismo narrativo daquela saga de Onze Homens e um Segredo. É um anacronismo que se resolve bem, porém: piadas de screwball comedy inocente pré-Coen se chocam com a clareza documental do digital, e daí o filme fica muito mais interessante como uma tentativa de renovação no retrato da América sulista, entre visões velhas e novas, e o personagem de Channing Tatum sintetiza esse impulso melhor que todos os outros (apesar de Daniel Craig ser obviamente a figura mais divertida de assistir).


37. Divinas Divas (Leandra Leal)
Pode até ser um documentário seguro, mas o olhar distante de Leandra e a descontração estética contornam muito bem o quão forte é esse objeto estudado, por si só. O presente dos rostos e emoções é o que interessa aqui, mais do que a História, a injustiça, e até mesmo o espetáculo. Um raro filme sobre alegria, mesmo que (ou principalmente porque) retratando figuras tão simbólicas de uma resistência.


36. O Artista do Desastre (James Franco)
Um pouco mais piegas do que o aceitável, mas foi um dos filmes mais engraçados que eu assisti esse ano. A reimaginação dos bastidores de The Room beira o surreal em como não economiza nem para abordar o aspecto de fantasia erótica do filme de Tommy, e a caracterização de James Franco combina perfeitamente o sarcasmo com a empatia. Tem uma natureza bem narcísica nessa ideia toda de ver figuras do star system hollywoodiano representando tal história de fracasso, mas ainda que o drama caminhe por um lado mais convencional, o orgulho irônico na cara desses atores consegue ser bem cativante.


35. A Qualquer Custo (David Mackenzie)
Pra muita gente um exemplo fresco do velho "ótimo roteiro com diretor genérico" (o texto é do roteirista de Sicario) mas eu penso que essa abordagem funcional do Mackenzie contorna muito bem o que o texto tem de esquemático - por exemplo, a construção de personagens regida por significados discursivos fica bem menos inchada na ótica simples do thriller de gênero, com a história bem contada entre prazeres de ação e alívios cômicos pontuais, sem nunca diluir o olhar político dos assaltantes anárquicos reencontrando seu devido eco no faroeste motorizado.

08/10/2017

Jogo de visores


Difícil falar de um filme como Blade Runner 2049 sem notar como 2017 está se consolidando como um ano estranho e paradoxal para o cinema de estúdio: cheio de ideias fortes e projetos curiosos, mas raramente satisfazendo nas bilheterias. Pode-se falar do obviamente insano e comercialmente mal-sucedido mãe! de Darren Aronofsky, mas nem precisa ir muito longe quando se pensa nas provocativas duas horas e meia de Planeta dos Macacos: A Guerra. A continuação de Blade Runner aparece como um desses objetos esquisitos, barulhentos, que exclamam seu orçamento épico e suas ideias grandiosas mesmo que não exista um hype muito significativo por parte do público em torno do projeto. Um momento de auto-confiança exagerada entre os estúdios americanos, talvez, mas que me parece estar sendo bem aproveitado por alguns.

Denis Villeneuve, inclusive, assume aqui seu lado "full auteurship", dirigindo mais próximo do ar opressivo e alienígena de Sicario e O Homem Duplicado do que das sutilezas dramáticas e fabulísticas de A Chegada (um filme muito mais da personagem de Amy Adams), e expressando todo seu gosto por composições rígidas, cheias de postura e pontos estáticos - não podemos esquecer de como antes de falarmos mal dele em La La Land, Ryan Gosling era o grande "poser" de Hollywood em Drive, retomando aqui sua vocação de modelo pouco expressivo. Já me incomodei muito com essas coisas em outros filmes do diretor, mas Blade Runner 2049 se constrói todo sobre a ideia de autômatos - bem releitura de Phillip K. Dick mesmo, e que se encaixa bastante no material por essas excentricidades de estilo.

12/09/2017

That '80s show


Por mais soluções um pouco exageradas e ambíguas que Bingo - O Rei das Manhãs tenha, uma questão importante se instaura no filme: como olhar para uma década como a de 80, hoje? Daniel Rezende, o diretor, responde esgotando aquela eterna briga entre TV e cinema - ele estabelece uma dicotomia; onde as imagens de TV banalizam e higienizam, as imagens do cinema, "oficiais" dentro da lógica narrativa do filme, monstrualizam e sensibilizam com grandeza e alucinação. Seu palhaço Bingo se faz, na frente das câmeras, confundindo o imoral e o inocente, e atrás das câmeras é uma presença destruidora, agressiva.

Unindo os dois universos há toda a decoração possível de um sonho retrô - a trilha sonora em sintetizadores, a cafonice bem reverente, a sinceridade vulgar. Mesmo assim existe ali quase um campo de batalha estético, não só inscrito no roteiro (o homem vs. a máscara performática e midiática), como nas imagens, que se debatem entre a romantização (sensação inevitável quando a câmera captura tão sobriamente Vladimir Brichta, chapado, dizendo que Leandra Leal "deve sentir tesão no que faz") e a moralização (todo o enrosco dramático, no final, se assume mais como culpa do abuso de álcool).

07/08/2017

Era uma vez um deserto digital


Quando George A. Romero faleceu em julho, muito se falou sobre as ironias ácidas de seus clássicos de zumbi e sua enorme contribuição para a ideia de horror social que inclusive parece voltar a se fortalecer ultimamente (notícias bem recentes dizem que Corra, além das críticas positivas, foi o filme mais lucrativo de 2017 até agora, e Jordan Peele deixava bem evidente o espectro de A Noite dos Mortos-Vivos). Mas é importante lembrar, também, como Romero parecia um descendente de John Ford no "olhar moral" que dava a seus filmes, buscando um ponto de vista sem se restringir a subjetividades, mas também guiado por alguma instância de conceito e narrativa, uma responsabilidade. O diretor sobrevoava as situações dos seus filmes norteado por visões sólidas e formadas, apesar de não se gabar delas. Em outras palavras, ele estilizava mantendo um coração classicista.

Aparentemente, esse lado de Romero interessa a Matt Reeves mais do que seu senso de humor, visto que Planeta dos Macacos: O Confronto praticamente era uma releitura dos contos de zumbi do cineasta recém-falecido. Atrapalhava um pouco, sim, a falta de uma noção do absurdo, num filme ainda muito deslumbrado com suas referências e discussões (em texto e imagem) sobre intolerância, puxando para a frente do palco um contexto social sem uma conclusão tão surpreendente. Planeta dos Macacos: A Guerra, a continuação dessa trilogia-reboot, já parece mais bem resolvido nessa relação com o que lhe inspirou - mesmo com tantos espaços e temas diferentes, o filme é, da cabeça aos pés, uma fábula de faroeste. Os personagens buscam terras prometidas, vinganças e sofrem intervenções; a tragédia e a ironia andam juntas e já anunciadas, e é desta forma que a narrativa lida, enfim, com o absurdo de um pós-civilização iniciado por uma gripe símia.

07/07/2017

Uma parte já foi

2017 se tornou o ano em que eu consegui entrar numa faculdade para cursar cinema, e aí acho válido já fazer uma recapitulação do primeiro semestre. Além de toda a experiência pessoal de vir morar sozinho em Niteroi, há (ainda em processo, sempre) aquele ritual todo de repensar anos de cinefilia descompromissada por olhos, desta vez, de quem um dia vai depender financeiramente desse universo. Muita coisa nova sendo aprendida, muita coisa velha sendo redescoberta, tudo em diálogo constante enquanto o país vai pegando fogo e eu vou tendo que me virar no dia-a-dia.


Em relação aos filmes lançados em circuito no Brasil nesse período, o melhor, dos que eu consegui ver, foi Toni Erdmann. Acabou dividindo um pouco seu público, e foi um tanto subestimado como um filme sobre o universo corporativo (ainda que isso esteja bem equilibrado com o drama do choque de gerações), em como ele explora e constrói uma atmosfera detalhada em cima disso, longe de uma retórica fácil sobre crises econômicas robotizando as pessoas. Tudo avança naquele impulso John Cassavetes de abordar existências desesperadas num misto de melancolia, cotidiano e constrangimento, e eu adorei. Silêncio, do Scorsese, que eu também acabei não comentando aqui, foi outro muito bom, provavelmente o melhor dos americanos. Há todo um problema de ponto de vista que eu acho que o filme insere bem no seu procedimento narrativo, como se o olhar religioso fosse por si só, em essência, uma fonte de conflitos e de bases culturais. Não que essa visão seja sua finalidade maior - ao contrário, é sim um conto pessoal, de um homem cristão, sobre fé e espiritualidade. Com a tensão semiótica, fica bem mais interessante, claro.


Já entre os brasileiros, Martírio, aquele documentário de Vincent Carelli, foi o meu favorito. Investigação intensa, bem narrada e com um efeito acumulativo que integra não só seus próprios momentos, mas um peso histórico de genocídio velado. Das tentativas recentes de um cinema nacional político/explosivo, de reação a uma onda ultraconservadora, acho que esse foi mais longe que todos os outros. E ver no cinema foi de um desconforto maravilhoso.

29/06/2017

Ao vivo e em cores


Provavelmente diz muito sobre Divinas Divas, documentário dirigido por Leandra Leal abordando um grupo icônico de transformistas cariocas, que quanto mais o filme adentra em questões sombrias relacionadas à situação histórica de suas personagens, mais estas sorriem de volta pra câmera, e mais se avança num sentimento de orgulho: o que Leandra parece buscar é antes a sensação de uma resistência plena e natural do que um peso (político, social e temporal) que se estabelece sobre as figuras filmadas.

Desde o começo fica claro um território bastante pessoal no cenário do filme, quando Leandra, em off, explica que membros da sua família têm ligação com a comunidade LGBT há anos e, principalmente, com o Teatro Rival onde a câmera se instala a maior parte da narrativa. Esse jogo de memória podia muito bem tornar Divinas Divas um documentário de espectros, sobre os espaços entre as imagens e arquivos, como na tradição Eduardo Coutinho. No entanto, o aspecto mais fantasmagórico no filme acaba sendo de longe o próprio voice over de Leandra Leal, que se coloca como um olhar nostálgico, de uma observação afetiva e discreta, sobre as mulheres e travestis que retrata.