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12/09/2017

That '80s show


Por mais soluções um pouco exageradas e ambíguas que Bingo - O Rei das Manhãs tenha, uma questão importante se instaura no filme: como olhar para uma década como a de 80, hoje? Daniel Rezende, o diretor, responde esgotando aquela eterna briga entre TV e cinema - ele estabelece uma dicotomia; onde as imagens de TV banalizam e higienizam, as imagens do cinema, "oficiais" dentro da lógica narrativa do filme, monstrualizam e sensibilizam com grandeza e alucinação. Seu palhaço Bingo se faz, na frente das câmeras, confundindo o imoral e o inocente, e atrás das câmeras é uma presença destruidora, agressiva.

Unindo os dois universos há toda a decoração possível de um sonho retrô - a trilha sonora em sintetizadores, a cafonice bem reverente, a sinceridade vulgar. Mesmo assim existe ali quase um campo de batalha estético, não só inscrito no roteiro (o homem vs. a máscara performática e midiática), como nas imagens, que se debatem entre a romantização (sensação inevitável quando a câmera captura tão sobriamente Vladimir Brichta, chapado, dizendo que Leandra Leal "deve sentir tesão no que faz") e a moralização (todo o enrosco dramático, no final, se assume mais como culpa do abuso de álcool).

Os momentos mais fortes acabam se concentrando no miolo do filme quando essas duas visões coexistem, enquanto Gretchen dança eroticamente para uma plateia infantil e Rezende ri disso tanto quanto se permite ao choque. Talvez fosse bem melhor se o filme ficasse só nessa parte e acabasse sem tantas soluções dramáticas, deixando para o espectador, ecoando pelos créditos finais, apenas as impressões conflitantes e esquisitas que lhe causam o típico monstro oitentista do showman misógino e drogado. Os planos longos e iluminação farsesca deixam no ar a sensação de que Rezende queria tirar algo de Brian de Palma e Cronenberg, caras que especialmente nos anos 80 levavam às últimas consequências o horror inicial do sucesso alarmante da televisão como uma nova estética midiática. Termina próximo de um contemporâneo deles mais distante, Robert Zemeckis, aquele nostálgico mais "família". Não deixa de ser um filme bem curioso.


Tempos sombrios


Sobre a questão de como olhar os anos 80 hoje, uma resposta bem fácil é It - A Coisa: adaptação de um livro de Stephen King considerado atualmente tão extenso, carregado e até problemático, feita com um certo grau de violência para os mais fãs, de esclarecimentos politicamente corretos, e também de higienização. It, o filme de cinema, absorve muita coisa da televisão americana contemporânea, especialmente da forma como Stranger Things enxerga a década ambientada na história, por clichês de crianças altamente pró-ativas, bicicletas e jump scares cartunescos, sem praticamente nada de como a década de 80 enxergava a si própria - as referências a Spielberg e Richard Donner estão de superfície, como se o filme separasse a identidade formal desses diretores dos signos mais óbvios e eternizados pela cultura pop (digo, como se o encantamento por véus e camadas revelados lentamente de E.T., por exemplo, não dissessem nada sobre os temas de amizade e fé que o filme explora). A Coisa pertence a uma sensibilidade inteiramente contemporânea, com a pressa de uma leitura em voz alta do livro feita com correções.

O filme funciona, sim, não por como adentra ou nos insere naquele universo, mas como uma colagem divertida e dinâmica de momentos inspirados/cativantes e outros claramente frouxos e filmados com o cuidado de um empresário metido a produtor de Hollywood. A performance de Bill Skarsgård como Pennywise é tão sinistra quanto a forma de "leproso" do personagem é risível; o núcleo dramático da garota empoderada Beverly funciona tanto quanto o do nerd religioso Stanley constrange; e por aí vai. Num fluxo ininterrupto de ideias boas e ruins, o filme ganha por sempre seguir em frente, sem perder tempo; por não se fixar onde provavelmente nem conseguiria desenvolver mesmo. Até porque, assim como com Stranger Things, não se pode dizer que It não tem sua forma de "olhar" a década de 80: A visão aérea e explicitamente corretiva do livro de King diz muito sobre como vemos ou queremos ver esse passado, mais do que diz sobre como a infância é uma época sombria que nós romantizamos.

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