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19/12/2017

Os 40 melhores filmes de 2017

Este foi um ano bem de transformações para mim, indo morar sozinho em outra cidade para estudar cinema, e aí nada mais normal que variar um pouco nos critérios pra fazer essa lista. Como consegui assistir bastante coisa interessante no Festival do Rio, então além dos filmes lançados em 2017 pelo circuito comercial, por home video, streaming ou on demand, vale também o que eu tenha visto em festivais este ano - já avisando que na Mostra de São Paulo eu não fui, então coisas que passaram apenas lá com certeza não aparecerão.

Outra mudança é que, como continuo deixando esse blog abandonado mesmo quando tenho tempo para postar algo, resolvi deixá-lo de vez (pelo menos por enquanto, quem sabe), mas estarei postando num projeto coletivo com amigos da faculdade, neste link aqui: http://conversasdebandejao.wordpress.com/. De qualquer forma deve ser a última vez que faço a lista de fim de ano nesse formato mais expandido e pessoal, seguindo os preceitos deste bom e velho texto da Cinética - legal também por ser um recorte que provavelmente eu vou querer "alterar" daqui um, dois anos, porque nossos gostos e visões mudam; mas sempre que eu revisito minhas outras listas de fim de ano nesse formato eu fico surpreso com o quanto minha opinião é diferente hoje, parece realmente outra pessoa escrevendo e organizando. Acho que esse blog todo (que eu tenho desde 2010, quando eu tinha 12 anos) também vai servir pra deixar registrado esses anos de cinéfilo de apartamento descobrindo coisas, e que eu vou acabar também revisitando com curiosidade algum dia, e nada melhor do que encerrar a jornada com mais uma lista dessas.

Sem mais delongas (e, aliás, que ano incrível):

40. Logan (James Mangold)
Eu já gostava levemente do outro filme do Wolverine que James Mangold dirigiu, e ali já dava pra ver uma fantasia auto-consciente e fascinada pelas ações do tempo sobre o corpo de Hugh Jackman. Logan desenvolve melhor tudo isso deixando bem exposta a veia melancólica, e por mais que seja tudo trabalhado sobre artifícios dramáticos previsíveis, o diálogo que se faz com os primeiros X-Men e as consequências da apropriação cinematográfica de um personagem icônico das HQs, transformado num corpo de carne e osso condicionado à realidade e ao tempo, consegue de fato ser bem impactante. Curto como o filme combina várias ideias aparentemente incompatíveis (como a violência, o sci-fi, a figura da filha etc) mesmo que no fim funcione mais pela simplicidade narrativa.


39. Segurança em Risco (Alain Desrochers)
Parece que colocar Antonio Banderas em Os Mercenários 3 deu efeito e o cara conseguiu um espaço significativo no mercado de filmes de ação direto-para-vídeo. Security é um dos bons filmes de gênero desse ano e consegue juntar a imagem meio desgastada do ator com uma premissa baseada num olhar infantil que restaura sua figura heroica, e, talvez até por causa disso, em muitos detalhes e sentimentos é um filme bastante reminiscente dos anos 90 - em especial diretores como John McTiernan e o James Cameron pré-Titanic. Tem várias ideias visuais e de exploração do espaço pela ação bem divertidas e uma concisão de arco dramático envolvente.


38. Logan Lucky - Roubo em Família (Steven Soderbergh)
Soderbergh retorna à premissa de assalto vingativo que o consagrou na trilogia Oceans como um dos melhores artesãos de Hollywood à época, mas algo em Logan Lucky parece perdido no tempo trazendo as mesmas estratégias de iconografia e ilusionismo narrativo daquela saga de Onze Homens e um Segredo. É um anacronismo que se resolve bem, porém: piadas de screwball comedy inocente pré-Coen se chocam com a clareza documental do digital, e daí o filme fica muito mais interessante como uma tentativa de renovação no retrato da América sulista, entre visões velhas e novas, e o personagem de Channing Tatum sintetiza esse impulso melhor que todos os outros (apesar de Daniel Craig ser obviamente a figura mais divertida de assistir).


37. Divinas Divas (Leandra Leal)
Pode até ser um documentário seguro, mas o olhar distante de Leandra e a descontração estética contornam muito bem o quão forte é esse objeto estudado, por si só. O presente dos rostos e emoções é o que interessa aqui, mais do que a História, a injustiça, e até mesmo o espetáculo. Um raro filme sobre alegria, mesmo que (ou principalmente porque) retratando figuras tão simbólicas de uma resistência.


36. O Artista do Desastre (James Franco)
Um pouco mais piegas do que o aceitável, mas foi um dos filmes mais engraçados que eu assisti esse ano. A reimaginação dos bastidores de The Room beira o surreal em como não economiza nem para abordar o aspecto de fantasia erótica do filme de Tommy, e a caracterização de James Franco combina perfeitamente o sarcasmo com a empatia. Tem uma natureza bem narcísica nessa ideia toda de ver figuras do star system hollywoodiano representando tal história de fracasso, mas ainda que o drama caminhe por um lado mais convencional, o orgulho irônico na cara desses atores consegue ser bem cativante.


35. A Qualquer Custo (David Mackenzie)
Pra muita gente um exemplo fresco do velho "ótimo roteiro com diretor genérico" (o texto é do roteirista de Sicario) mas eu penso que essa abordagem funcional do Mackenzie contorna muito bem o que o texto tem de esquemático - por exemplo, a construção de personagens regida por significados discursivos fica bem menos inchada na ótica simples do thriller de gênero, com a história bem contada entre prazeres de ação e alívios cômicos pontuais, sem nunca diluir o olhar político dos assaltantes anárquicos reencontrando seu devido eco no faroeste motorizado.


34. Fragmentado (M. Night Shyamalan)
A obsessão de Shyamalan pela relação das pessoas com mitos e ficções encontra um ponto limítrofe - o personagem de James McAvoy simplesmente dilui a própria personalidade em várias ficções diferentes. Consegue ser o filme em que o senso de humor do indiano funciona melhor, no tipo de irreverência que leva Shya a redescobrir-se como fabulador popular, tão impulsivo e rumo ao apocalíptico quanto num Fim dos Tempos, mas mais propenso a entender sua ansiedade e a do público. Lentamente abrindo a cabeça de um torturado cheio de imaginação, o vai-e-vem na simpatia com o monstro sugere que talvez seja tudo uma fantasia de poder ambígua e destrutiva do indiano. Prefiro a clareza dramática de A Visita, mas Fragmentado é seu mais legítimo exploitation - e de um rigor formal impressionante.


33. O Estranho que Nós Amamos (Sofia Coppola)
Existe primordialmente num campo de ideias até mais do que o comum nos filmes da Sofia Coppola, mas The Beguiled até que abraça isso no ar de fábula que o envolve desde o início, levando a trama original, muito mais ligada às consequências da Guerra Civil americana, num ritmo suspenso no tempo, quase abstrato na ambientação. No fim das contas é bem um filme sobre como a vida dessas personagens é uma longa espera que nem uma narrativa absurda de cinema consegue interromper.


32. Detroit em Rebelião (Kathryn Bigelow)
Sou bem fã das duas parcerias anteriores da Kathryn Bigelow com o roteirista Mark Boal, mas Detroit já começou a mostrar sinais de desgaste especialmente nos artifícios de "cinema de prestígio" em torno de narrativa histórica que o Boal abusa de vez em quando. Ainda é um filme bem interessante por como essa trama de colapso social e conflitos raciais expostos ao limite é levada pelo olhar pragmático da diretora, que busca o controle e a atitude inteligente de seus heróis até quando a gente sabe que o problema é mais fundo. Por mais que me incomode o quão literal ele fica como discurso, os prazeres de estudo de caso pela ação seguem sendo intensos e bem filmados, como uma noite apocalíptica numa América cheia de rachaduras estruturais. Em muitos sentidos é um filme que volta a deixar mais exposta a veia de cinema de gênero da Bigelow.


31. Guardiões da Galáxia - Vol. 2 (James Gunn)
Quase um corretivo pras mudanças bruscas de tom do primeiro filme - desta vez Guardiões da Galáxia realmente assume seu desejo de cafonice catártica. James Gunn aposta em vários núcleos narrativos, cada um com seu gancho para êxtases de humor e aventura diferentes, que vão se desenvolvendo por cenários em comum e que nunca perdem o sentido disso tudo como uma legítima fantasia pop sobre poder e trabalho em equipe. Claro que o filme tem seus momentos fracos e os excessos típicos de fórmula, mas o humor negro rasgante, o visual de revista pulp e o calor humano estão sempre ali entre os sonhos melódicos do diretor. Meu favorito da Marvel Studios desde Os Vingadores.


30. Personal Shopper (Olivier Assayas)
Este aqui foi um desses filmes que dividiu tanto as opiniões que eu esperei abaixar a poeira pra assistir, e fiquei meio surpreso com o quanto Personal Shopper é, simplesmente, uma chave mais explícita pras investigações do Assayas sobre as forças de "presença" que uma câmera e um corpo conseguem invocar num filme. Existe toda uma acumulação de signos sobre a "proliferação de telas" no mundo globalizado, que muitas vezes surgem mais como um comentário sobre uma geração do que uma provocação mais séria; porém algo de intenso se extrai, por desejos e angústias, daquela relação de Kristen Stewart com o "fantasma" ambíguo que se manifesta por mensagens de celular - o próprio Assayas puxa essa ambiguidade pra superfície do filme numa das muitas jogadas estranhas e curiosas que deixam tudo meio incompleto e instigante.


29. No Intenso Agora (João Moreira Salles)
Filme-ensaio bastante pessoal que lança esse olhar do íntimo sobre um exame exaustivo de filmes históricos e registros de testemunho civil. Busca a alegria e o percurso desconhecido do tempo, a relação da sociedade com suas imagens e a política; por vezes meio enrolado narrativamente, mas reencontra na cena final aquela força do desejo de conter a memória e a história.


28. La La Land - Cantando Estações (Damien Chazelle)
Muita gente acusou este aqui de impôr agressivamente uma visão elitista sobre música, mas uma das coisas que eu acho mais cativantes em La La Land é como todos os personagens são idealistas e, no entanto, só na conquista pessoal de um espaço próprio de expressão que o sonho é "possível" - algo que remete a um american way of life, talvez, mas aquela última troca de olhares, pra mim, é a resposta mais brutal a qualquer tentativa, no filme, de fazer um mundo curvar às suas ideias. A direção de Damien Chazelle carrega no excesso em alguns pontos e o personagem de John Legend precisava de mais espaço, mas estou longe de achar um filme simplista - o sentimento é forte tanto na reverência quanto na auto-crítica, e o momento Sinfonia de Paris é espetacular.


27. O Jogo Perigoso (Mike Flanagan)
Finalmente deram a Mike Flanagan uma história incrível para ele se debruçar nas suas habilidades com storytelling econômico e atmosférico. Tem um epílogo bem ruim imitando Frank Darabont que infelizmente compromete, pelo esgotamento, o aspecto de conto moral; gosto muito de toda a jornada emocional que vem antes, segurando as expectativas até seu limite e desmistificando idealizações dos anos 50 pelo bem do arco dramático (enquanto adaptações de King desse ano, acho Gerald's um esforço até mais romanesco que It) - além de que esse é facilmente o papel da vida de Carla Gugino.


26. Blade Runner 2049 (Denis Villeneuve)
Talvez seja essa a melhor abordagem que alguém pode dar a um filme inspirado na obra do K. Dick: pegar uma história inicialmente simples e transformar num surto alucinatório de neon e mundos labirínticos nebulosos. Ainda acho que a pose de diretor de luxo do Villeneuve deixa muita coisa supérflua (Arrival segue sendo seu melhor filme com aquele ar suave de fábula), mas eu nunca vi tantas ideias brilhantes de texturas sci-fi e paranoia tecnológica se acumulando ao longo de um filme só, de imagens e telas que nós não sabemos de onde vêm, a planos do ponto de vista de robôs programados para destruição - passando por um pastiche de Her desta vez composto inteiramente de inteligências artificiais. Tão maravilhosamente esquizofrênico quanto o original.


25. Aliados (Robert Zemeckis)
Uma espécie de híbrido de gêneros bem hollywoodiano que eu não consigo deixar de enxergar como uma expressão pessoal, quase auto-crítica, da relação intensa que Zemeckis sempre teve com a época áurea dos estúdios - cada sequência individual é tão perfeitamente ornada e misteriosa que é como se a dúvida central da história (devemos ou não confiar na personagem da Marion Cotillard?) dissesse respeito também à forma como lembramos do mundo pelos filmes. Bem o tipo de ambiguidade que o final acaba deixando mais mastigado - tal qual Gerald's Game, o epílogo é claramente dispensável -, mas alguns dos meus momentos favoritos de 2017 não deixam de estar aqui, sendo um filme que explora bastante as habilidades do diretor com narrativa clássica.


24. Lumière! A Aventura Começa (Thierry Frémaux)
Exercício crítico dos mais cativantes por cima de uma série de curtas encontrados da empresa dos irmãos Lumière. A forma como mesmo o senso de humor dos comentários remete ao senso de humor dessas imagens é especialmente marcante, além da busca por percepções novas sobre os "primeiros cinemas" que parece querer reestabelecer (ou restaurar) por onde se dá a potência de um quadro nos filmes.


23. Corra! (Jordan Peele)
O conto de vingança do ano. Ainda acho que a trama toma uns rumos meio mal imaginados, e que um pouco mais de mise-en-scene faria bem em alguns momentos, mas segue sendo um estouro divertidíssimo de releitura racial de um gênero cheio de paranoias conservadoras como o horror - inclusive adoro a transformação repentina e catártica num slasher de auto-defesa no clímax. O que me admira mais é como Jordan Peele tem o controle certo sobre o drama inserido nessa narrativa, com a cena mais tensa e assustadora sendo o close-up num personagem em lágrimas.


22. Planeta dos Macacos: A Guerra (Matt Reeves)
O Confronto tinha lá seus momentos e ideias, mas sempre achei o tom meio diluído em tiques genéricos de "blockbuster responsável" que o Matt Reeves só conseguiu contornar por uma dimensão épica, de fato, neste capítulo final. O melhor filme da trilogia, que exala todo o peso de um conto moral atmosférico sobre culpa e paranoia, mais interessado no drama do que no discurso, filmado como western clássico e fábula apocalíptica. Várias imagens impressionantes e bem arquitetadas, mas os close-ups nos personagens digitais impossíveis seguem sendo as melhores.


21. Eu Não Sou Seu Negro (Raoul Peck)
Das consequências de construir uma sociedade inteira sobre uma ideia falsa de realidade; branquitude como um estado de infantilidade crônica sobre o qual se funda todo o cinema americano. Bastante claro e elegante nessa dinâmica de complementar em imagens os escritos de James Baldwin, ainda que sua força esteja mais nos filmes de arquivo protagonizados pelo intelectual.


20. Quase 18 (Kelly Fremon Craig)
Assim como aconteceu com Pineapple Express, uma das melhores comédias americanas dos últimos anos é lançada direto pra home video e serviços on demand. Hailee Steinfeld surge como uma construção icônica da jovem revoltada e mal sintonizada com seu tempo, e a consequência narrativa que se segue é praticamente um estudo de personagem não só bonito como precisamente sincero, disposto a se sujar de verdades tanto quanto se recusa à distância irônica fácil. Parece simples, mas tem um peso que consegue imprimir a cada reviravolta dramática mesmo com algum humor do cotidiano presente o tempo todo.


19. Ex Libris: Biblioteca Pública de Nova York (Frederick Wiseman)
Tem tantos gestos políticos e humanos fortes em jogar luz assim sobre os mecanismos de uma instituição pública americana, que fica difícil falar "por" Ex Libris. A postura de "cinema-verite" pode ser exaustiva ou um tanto repetitiva, mas o filme forma um organismo vivo e complexo, se articula pela pureza documental e ainda assim extrai retórica: a inteligência em meio às crises, a economia, a busca por espaços de expressão, as comunidades e suas vozes, o equilíbrio de partes - as contradições, os empecilhos.


18. Moonlight (Barry Jenkins)
Moonlight me fez pensar muito como faz diferença, ainda mais num cinema de ativismo social ligado a realismo estético e símbolos de resistência humana, trazer uma musicalidade para expressar o subjetivo. Jenkis pega muita coisa de autores asiáticos como Wong Kar Wai e Hsiao-Hsien, mas o que ele forma é menos um estudo sobre a memória e o desejo (como esses outros diretores preferiam) do que uma grande epopeia negra - uma trajetória lendária, melancólica e violenta cantada para os ventos do mar da Flórida. Tem algo de bem experimental, nem sempre bem-sucedido nas suas ideias visuais com o uso do digital, mas o peso nos olhares desses atores é uma força constante e expansiva.


17. Marjorie Prime (Michael Almereyda)
Quem diria que a influência de Alain Resnais funcionaria tão bem numa ficção científica minimalista. É uma adaptação de peça teatral que explora umas variações dramáticas bem fortes de cena para cena, enquanto a ideia central vai ganhando contornos brutalmente melancólicos. O final pode ser de uma licença poética irônica que explicita de vez a referência do diretor de Medos Privados em Lugares Públicos, mas a postura de enxergar a memória como uma criação narrativa, que se transforma a cada enunciação nova, está ali desde o início.


16. Star Wars: Os Últimos Jedi (Rian Johnson)
Eu tinha boas expectativas sobre esse Os Últimos Jedi, ainda mais com Rian Johnson como diretor, mas eu jamais esperaria um filme tão arriscado, tão congestionado de ideias, tão crítico sobre a própria mitologia da saga, e tão disposto a quebrar os ciclos antes de recuperar a lenda. Tem algumas das melhores cenas de ação da saga e uma intensidade de discurso e drama que me remete àquela abordagem bem pessoal e irreverente de Guillermo Del Toro sobre o subestimado Blade II.


15. As Boas Maneiras (Juliana Rojas, Marco Dutra)
Um filme estranho e irregular que traz à tona como nenhum outro a discussão sobre a possibilidade do cinema brasileiro "de assinatura", pessoal e politicamente resistente, se expressar por uma chave de linguagem mais popular. Boas Maneiras combina vários elementos culturais típicos (regionais e nacionais) a referências cinéfilas mais específicas como Jacques Tourneur e fábulas Disney, mas se mantém numa ótica de provocação social e política (como essa dupla de diretores fazia de forma mais metafórica em Trabalhar Cansa) que deixa tudo ainda mais perturbador. É como um sonho perdido e incerto, imaginado por pessoas intimamente ligadas à experiência de viver numa cidade solitária e surreal como São Paulo. Um registro de horror e enfrentamento que encontra um registro mais lúdico e infantil tentando um diálogo, e daí o filme parece ser o documento da dificuldade de negociação entre esses vários pólos contrastantes da cultura brasileira.


14. John Wick: Um Novo Dia Para Matar (Chad Stahelski)
Fora toda a energia e a coreografia de movimento e de luz, um filme com um mundo inteiro se curvando a suas cenas de ação. Não deve existir um conceito mais absurdo ou inventivo para se referir aos prazeres de gênero como legítimos delírios catárticos, e cara, como John Wick 2 se diverte consigo mesmo. É farsesco e onírico no mesmo compasso, o cinema como fuga até o ponto em que a gente nem tem mais noção do alcance desse submundo criado e a fantasia logo se torna realmente inescapável.


13. Além das Palavras (Terence Davies)
Quase uma leitura telegráfica e teatral de informações biográficas até você perceber que enquanto todos os fragmentos importantes estavam sendo acumulados, uma personagem realmente se formou de tudo isso. De uma encenação rígida que parece suspender a si própria como artifício e materialização do invisível/incerto (quem garante que a história é exatamente essa?), Terence Davies faz Emily Dickinson renascer e tira disso um melodrama seco e cortante sobre isolamento e desencanto. Acho que o que diferencia tanto A Quiet Passion de outras biografias acadêmicas é primeiro o foco de Davies (todos os personagens acabam importando, cada um à sua forma) e então essa auto-consciência de que transfigurar uma história de vida em cinema é avançar no escuro e desconhecido dos interiores íntimos.


12. Silêncio (Martin Scorsese)
Depois de esgotar o excesso como um instrumento político em O Lobo de Wall Street, Scorsese se joga num percalço de debates éticos com uma secura de estilo disciplinar. Tem todo um enchimento de ambições temáticas grandiloquentes, mas tudo por uma economia de planos e montagem bem distante de como o diretor fazia nos seus outros épicos históricos. Moral e espiritualidade como fontes eternas de conflito, e eu admiro muito como o filme deixa que as fraturas e provocações de ponto de vista preencham as bordas enquanto seu eixo dramático central vai caminhando rumo à redenção pela fé que o nova-iorquino tanto queria filmar.


11. Zama (Lucrecia Martel)
Aquela imagem inicial do peixe que tenta nadar reto na correnteza mas é sempre jogado para os cantos pela violência da água é bastante simbólico do tipo de experiência que Zama quer evocar. Um filme expressamente controverso que se apoia num sarcasmo bizarro para repensar a vida do colonizador europeu como o inferno pessoal de seu próprio desejo de controle. Vários planos claustrofóbicos, personagens que aparecem somente para instalar o caos, e a tradição oral das lendas e mitos já prevendo o tipo de sociedade bárbara que esse sistema de produção construiria. Quase um faroeste revirado do avesso, e bem inventivo também como um olhar de culpa branca.


10. Baby Driver - Em Ritmo de Fuga (Edgar Wright)
Acho que se tem um filme pra representar o estouro de liberdade criativa que foi 2017 para o cinema de gênero hollywoodiano, esse filme é Baby Driver. Falou-se muito sobre as referências visuais ao Walter Hill de The Driver e The Warriors (e a relação musical tem muito do espírito de Ruas de Fogo), mas existe essencialmente um gosto encantado pelo absurdo e pela anarquia iconográfica que me lembra muito John Landis. Ainda assim, acho que ninguém diria que é um filme oitentista - é tipicamente 2017, um coming of age com um protagonista tímido e descolado que participa de assaltos com a mesma indiferença com a qual escuta músicas no fone de ouvido, até o momento em que ele precisa tomar um partido e transformar esse universo cinematograficamente violento que o envolve. Vi duas vezes no cinema e foi catártico.


9. Martírio (Vincent Carelli, Tatiana Almeida, Ernesto de Carvalho)
Dessa leva mais recente de filmes brasileiros politicamente confrontadores, Martírio virou meu favorito. Quase um thriller investigativo em forma de documentário, e uma experiência bem catártica de assistir no cinema mesmo com duas horas e quarenta de duração. É um filme explosivo, incansável, que avança e avança e avança e não recua mais. Além de uma história muito bem contada nos vários núcleos de tempo e espaço que estabelece como guias narrativos.


8. Manchester à Beira-Mar (Kenneth Lonergan)
Deste aqui me cativou muito a forma como ele se desenrola como um "filme de interiores", e ainda assim encontra brechas bem econômicas para atingir a potência de um drama clássico, da dor expurgada para a plateia, das coisas incontornáveis, da comunidade local e sua coleção de personagens coadjuvantes singulares e igualmente importantes - só ver como Michelle Williams sempre entra em cena trazendo consigo todo o peso de uma narrativa fora-de-quadro irreconciliável.


7. Paterson (Jim Jarmusch)
No espaço fechado e tipicamente americano da cidade de Paterson, os signos dançam e perambulam entre os artistas. A poesia está em tudo, porque as coisas existem tanto fora quanto dentro da gente, como coisa e como memória, e na frente da câmera Jarmusch absorve essas ideias como um universo sempre aberto para o artista. Pessoal e sintético, um dos melhores filmes do diretor por saber enfrentar suas cafonices simbolistas com leveza e um senso de humor bem discreto.


6. Z - A Cidade Perdida (James Gray)
O filme mais saudosista do James Gray, mais próximo que nunca de uma memória afetiva de cinema clássico, quase fordiano no retrato da busca por uma civilização em terras desconhecidas. Se por um lado os tiques de reverência abrem o jogo da teatralidade que antes era mais sutil nos filmes do diretor, por outro lado Z resolve questões importantes nessa filmografia (a herança geracional como um fardo poético e brutal) por uma relação bem abstrata entre o homem e a natureza, que assume até a forma de uma dialética ideia e realidade. A resposta explicitamente ambígua no final só me diz que Gray queria fazer um filme gigantesco, e que ele consegue justamente por deixar o mistério se infiltrar fundo.


5. Me Chame pelo seu Nome (Luca Guadagnino)
A fantasia sexual como qualquer outro sonho perdido por entre as brisas do verão. Não chega a ser muito mais transgressor do que essa exploração romantizada de corpos masculinos por uma ótica de memória adolescente e mistérios do íntimo, mas a imersão nesse universo é convidativa da melhor forma. De uma estilização bem iconográfica, tão comprometido com as superfícies que o drama se manifesta pela sugestão entre uma ilusão e outra - e ainda assim a suavidade nos momentos de dor é devastadora.


4. Na Vertical (Alain Guiraudie)
Algo como um Lisa e o Diabo de Alain Guiraudie, ou então um In the Mouth of Madness: Cada signo espaço-temporal rodando em círculos rumo ao caos, com a crise criativa de um artista levando a uma projeção de sua visão íntima do apocalipse. A apropriação de imagens bíblicas não é heresia fácil, ela realmente vem dotada de um sentimento de profanidade e desespero, ainda que o senso de humor queer esteja ali, provocando. A parábola "gender-fluid" das coisas absurdas da natureza (incluindo aí a mais perversa das naturezas, a do sexo); sobrevivência e fim do mundo dialogando enquanto a narrativa consegue se manter de pé.


3. Toni Erdmann (Maren Ade)
Todo trabalhado sobre uma ideia de diferenças geracionais irreconciliáveis, mas que ganha um sentido político especial na forma como o dia-a-dia corporativo da filha individualista é abordado em detalhes, cada relação humana observada contando como medidora de um sucesso profissional que não se atinge como concreto. O personagem do pai não é só um comentário sobre "jovens sem senso de humor", é um legítimo desejo anárquico de desestabilizar um sistema social e econômico. Isso tudo por um impulso bem John Cassevetes de abordar existências desesperadas num misto entre melancolia, cotidiano e constrangimento.


2. Bom Comportamento (Ben & Josh Safdie)
Rostos fodidos vagando pela cidade. No grande não-lugar que são as ruas, Robert Pattinson tenta usar de tudo que pode, incluindo seus privilégios sociais, para livrar uma culpa. Tem algo de Abel Ferrara, mesmo por remeter a um "olhar moral" (que faz mais sentido com a brilhante última sequência), e que encontra uns efeitos bastante particulares enquanto a câmera se esforça em desfigurar e diluir.


1. Certas Mulheres (Kelly Reichardt)
O título Certas Mulheres puxa muito a ideia de um recorte arbitrário, mas a gente sabe que esse é o maior empecilho para os dramas dito "naturalistas": se desviar do controle dramático calculado, geralmente buscando o espontâneo pelo estranhamento. O meu filme favorito de 2017 foge bastante disso; pertence a um rigor de olhar sobre um microcosmo rural profundo e realista, mas é também fabulístico, deixa as narrativas respirarem até mesmo como simples narrativas, com heroínas e revelações. Não existe nem mesmo um simbolismo uniformizante. Kelly Reichardt filma crônicas e movimenta uma visão de mundo pela forma como caracteriza esse espaço comum às várias personagens. A solidão chega para todos, e no vazio da natureza os dramas da vida podem somente se dissipar. É triste e lindo, porque essas mulheres nunca estão realmente sozinhas.



Menções honrosas: Moana - Um Mar de Aventuras (Ron Clements, John Musker), Era o Hotel Cambridge (Eliane Caffé), Um Limite Entre Nós (Denzel Washington), Mulher-Maravilha (Patty Jenkins), LEGO Batman - O Filme (Chris McKay), 120 Batimentos por Minuto (Robin Campillo), Até o Último Homem (Mel Gibson), A Morte te dá Parabéns (Christopher Landon).

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